Certificado DRT

Omid Bürgin

Conheça a história de Omid Bürgin, com vasta gama de realizações e atividades relacionadas ao áudio e estúdios.

A gente sempre quer viajar. Fazer uma coisa temática…” Para Omid Bürgin, músico, produtor, etnomusicólogo e projetista com mais de dez anos de experiência nos principais estúdios de Los Angeles e mestre pela Universidade da Califórnia (UCLA), um projeto de acústica, seja ele um homestudio, um auditório ou um estúdio profissional, requer perfeito planejamento em itens que, não raro, são deixados de lado. Inclusive a importante parte da “viagem” ­ uma alusão ao que, segundo ele, é o objetivo subjacente a todo projeto: integrar estética, criatividade e funcionalidade.
“Quando se conhece bem acústica, você é livre para criar. O mesmo se pode dizer da música, do áudio e da produção”, diz.
“Em um projeto, minha primeira preocupação é o aproveitamento do espaço e do orçamento. Fazer algo bem-feito dentro dos valores dados pelo cliente”, explica. Bürgin, que até 1997 vivia em Los Angeles, EUA, trocou o made-in-Hollywood pelo “Brazil” quase sem querer. “Queria sair um pouco porque estava trabalhando demais, LA é uma cidade muito workaholic. Em duas semanas me envolvi em projetos aqui. Minha intenção inicial era viajar, conhecer a Bahia, e até agora nem fui!”, ri.

Condições brasileiras

Desenvolver projetos de áudio e acústica no Brasil significou adaptar-se às condições oferecidas pelo País, conciliando o conhecimento acumulado nos anos de trabalho no exterior e, ao mesmo tempo, a criatividade patente do brasileiro. Assim, as plantas de estúdios desenvolvidas pelo OMiD podem prever materiais mais baratos como o concreto e mesmo aparentes extravagâncias, como janelas, plantas e fontes de água ­ o que, aliás, é o caso do estúdio do próprio Bürgin, atualmente em fase final de construção e bem localizado no arborizado bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.
Com ou sem dinheiro, com ou sem acabamentos opcionais, é preciso entender o estúdio do ponto de vista do produtor, do técnico e do músico. “Isso é uma vantagem minha: comecei como músico, passei a técnico e produtor. Agora fui além, fazendo projetos, no fundo, para músicos, técnicos e produtores”.

Os Sete Elos ­

A importância do conhecimento abrangente aparece quando se observam todas as etapas que compõem um trabalho de áudio, resumidas por Bürgin segundo o que ele chama, em seus cursos no Brasil, de Sete Elos: músico/fonte, instrumento, acústica, colocação, microfonação, fluxo de sinal e estrutura de ganho. Qualquer escorregada neste caminho das pedras pode comprometer o resultado final do trabalho.
Assim, por exemplo, “uma produção começa com o músico, que deve saber escolher seu instrumento, tocá-lo e afiná-lo, além de conhecer sua acústica”, explica Bürgin. O técnico, por sua vez, deve ajustar e aproveitar as condições do instrumento e da acústica ambiente para uma melhor captação. O produtor idealmente deve saber isto e mais os outros elos. Em suma, existem mil e uma maneiras ­ no processo inteiro ­ de se acertar e errar.
Em resposta às demandas por um assessoramento mais completo na área de áudio e música, o OMiD nasceu como um bureau múltiplo de produção, cursos, projetos e estúdio. Há quatro anos no mercado, presta consultoria completa nas áreas de áudio e música, sempre buscando atualização segundo técnicas e conceitos desenvolvidos internacionalmente.

Conhecimento em áudio

Bürgin, que ministrou cursos de áudio, acústica e produção musical na UCLA, Musician’s Institute (Hollywood), Santa Marcelina e USP, entre outras instituições, também dá aulas em seu estúdio ­ onde, além dos estúdios de gravação e produção em construção, há um espaço para treinamento profissionalizante-, partindo do princípio de que a formação continuada é pré-requisito para a atividade profissional de qualidade.
“Trabalhamos muito melhor com o cliente que fez o treinamento. O problema é que no Brasil não se valoriza muito o conhecimento. Aqui, equipamento é tudo. As pessoas acham que compram um G4 e um Pró-Tools e têm um estúdio. Mas às vezes não sabem fazer uma microfonação, uma estrutura de ganhos, e nem aproveitam a acústica de que dispõem, até detonando o que já têm”, diz.
O resultado é um mercado amador sem referenciais e um contexto profissional em que há amadores atuando sem preparação adequada. “Isto é um problema também na questão da construção. É difícil achar pessoas competentes – um marceneiro que tenha uma boa experiência na área, por exemplo”.

Projetos de estúdio

Por conta desta indefinição do mercado, o OMiD também executa muitos projetos, dispondo de equipe própria para isto. “A idéia de se fazer um projeto é tentar defender o cliente para ele poder orçar com várias pessoas. Mas aqui não funciona assim. Nos EUA, você vai por aí com o projeto, pergunta quanto custa e pronto. Aqui, você chega a esse quanto-custa, mas eles não sabem o que você quer e às vezes sequer entendem a planta”, analisa.
Mesmo assim, acredita, a tendência deste quadro é de melhora. Além disso, se por aqui muita coisa ainda funciona com o quê do indefectível “jeitinho”, por outro lado a qualidade musical é indiscutível. Canto da sereia pra suíço ver.
“Aqui há muito talento. Tem muitos músicos bons, e a música em si é muito rica. E há interferências musicais interessantíssimas, com vários estilos se acumulando. Para quem vem de fora, é algo muito rico”, diz. Neste contexto, “o espaço que estou construindo é comercial, mas haverá momentos em que se poderá brincar bastante, viabilizar experimentações”.

Música Nativa

Bürgin é um confesso aficcionado pela música nativa. Autor de um extensa pesquisa junto aos índios Mehinaku, no Mato Grosso, já participou de inúmeros projetos de música no Brasil. Hoje, um de seus Graals é a transcrição das gravações feitos entre 1912 e 1914 do Koch-Grünberg.
Bürgin enumera o que considera essencial para um bom projeto de acústica: basicamente, o equilíbrio entre acústica, conhecimento e equipamento. “Não é só fazer um isolamento e depois botar umas espumas ou placas de absorção”, diz.
“Para começar, na técnica, o mais importante, em minha opinião, é o initial delay gap ­ o tempo que o som indireto, ou primeira reflexão, leva para chegar ao técnico, e que depende da boa integração entre monitoração, deflexão e difusão. Este tempo é crucial, e quase todos os projetos que vejo erram aqui”.
Outra: “num estúdio, muitas vezes se projeta um tempo de reverberação muito maior nas freqüências graves e muito pequeno nas agudas, as quais justamente se tira com carpete, cortina, espuma etc. O correto é o contrário, e é difícil chegar nisso. Isso é que eu acho impressionante. Alguma pessoa fez errado e as outras copiam”.

Elétrica e blindagem no estúdio

Quanto às questões diretamente relacionadas ao áudio, há pelo menos três principais fontes de interferência no sistema que devem ser rigorosamente previstas e sanadas por um projetista: rede elétrica (60Hz e os seus harmônicos), radiofreqüências e indução eletromagnética.
Em primeiro lugar, segundo Bürgin, é preciso se criar um escudo eletromagnético para o estúdio, transformando-o em uma gaiola de Faraday, através de revestimento completo com malha metálica, por exemplo.
Em segundo lugar, toda a fiação precisa ser equipada com blindagem eletromagnética. Isto impede, por exemplo, que o cabo de um amplificador funcione de antena e se transforme naquela indesejável FM.
Por fim, o aterramento dos sistemas elétrico e de áudio deve ser unificado. Do contrário, um problema com loops de sinal entre os fios terra ­ ou seja, rrrrrrrruídorrrrr ­ pode ser muito mais difícil de se detectar e eliminar.

Musicalidade

Em relação aos finalmente, isto é, a música que vai sair de toda esta simulação-de-zelo-ideal, Bürgin é categórico. “Não existe o ruim na música e na produção. Mas você tem que saber o que quer e criar este som, e há maneiras muito simples de se chegar lá”. E completa: “uma boa sopa usa o mínimo. Se você coloca mais disso e daquilo, no final ou você tem mais sopa (risos) ou algo meio sem gosto”.
“No fundo, a ideologia é simplicidade em tudo o que faço. Os projetos são os mais simples possíveis, o que é interessante para o cliente, porque são mais fáceis de se executar; as produções também, o que é interessante porque se utiliza menos tempo de estúdio. Afinal, você tem que saber tomar as decisões certas, é cirúrgico ­ qual microfone usar, como, e qual é o ambiente acústico. A partir daí, você já tem a fonte, a matéria-prima, que é o som, acertada. Depois é só dar-lhe uma boa modelagem”. Quase sempre, cabe o paradoxo: menos é mais.

Principais projetos

Entre os primeiros projetos oficiais do OMiDstudios está o Canal52, de Cláudio Baeta, baterista do cantor Leonardo. O estúdio foi planejado e executado tendo em vista a atenção especial à bateria, justamente um dos instrumentos mais complicados de estúdio, já que sua linha percussiva abrange agudos, médios e graves. Para que o ambiente fosse adaptável a variados contextos musicais, foi construída uma acústica ajustável. Se o baterista toca sozinho, posiciona-se no centro do estúdio e, se acompanha banda, dispõe de um canto especial, onde painéis de difusão e reflexão regulam o brilho do instrumento.
Bürgin inspirou-se em seu contato com indígenas para fazer seu próprio estúdio. O segundo andar, de pé direito alto, tem uma parede inteira de vidro, com uma vista privilegiada, e todos os recintos somam poucas portas. “Sendo tudo aberto”, diz, “as pessoas e as idéias fluem muito melhor”.
“A única coisa fechada, por causa da acústica, são os estúdios, e mesmo eles têm janelas grandes para deixar entrar a iluminação natural. Até por isso esse projeto acaba atrasando. As janelas que o estúdio lá embaixo vai ter, mesmo pequenas, são mais caras do que as paredes inteiras. E há paredes e pisos flutuantes ­ uma caixa flutuante ­ sobre base de neoprene… tudo isso requer um cuidado até artesanal.”
Contatos para imprensa: Susana Bragatto – Mtb 31.898